Sobre desejos, perdas e a capacidade de reagirmos

Reveillon de 2000. Passamos a noite na praia. Pulando as sete ondas na hora da virada, como manda a tradição, desejei que eu pudesse ter um bebê. Não havia como não pensar nisso nesta hora, afinal como diz a canção “que tudo se realize no ano que vai nascer”. Não desejei ficar grávida, fui bem explícita no meu desejo de Ano Novo – desejei ser MÃE.

 

Nos dias que se seguiram, adotei um exercício mental, ensinado por minha amiga Andrea, que também havia perdido um bebê. Era um exercício de cura. Antes de dormir, quando fizesse minhas orações, deveria agradecer a Deus por tudo. Mas não o agradecimento habitual, que sempre fiz. Deveria agradecer por tudo mesmo, inclusive pelos abortos ocorridos.

 

Como ser grata em um momento assim? Como agradecer pela perda de um bebê que eu já amava antes mesmo de nascido? Quase duvidei da minha capacidade de seguir adiante, mas resolvi tentar, conforme instrução.

 

O raciocínio era muito claro, assim como a personagem “Pollyanna”, do livro de mesmo nome, que buscava achar razões para se alegrar, diante de fatos ruins, o chamado “jogo do contente”, eu deveria encontrar razões para agradecer a Deus pela experiência ruim que tive, encontrando nela algo de bom.

 

Comecei meio superficialmente em um primeiro instante. Agradeci a Deus por ter ficado grávida. Conseqüentemente, agradeci pela alegria de ter podido engravidar, enquanto tantas mulheres nem tinham experimentado esta sensação. Parei por aí.

 

Na noite seguinte consegui compreender melhor o mecanismo do exercício. Agradeci por todos aqueles dias de euforia que se seguiram à notícia de estar grávida. Depois, por termos conseguido, meu marido e eu, lidar com a situação com bastante serenidade.

 

Depois agradeci por ter perdido o bebê no início da gestação, antes que ele tivesse um nome ou sexo definido. No outro dia consegui agradecer por não ter tido complicações decorrentes do abortamento, infecções ou hemorragias. Por ter um convênio e poder consultar outros médicos e por poder fazer os exames necessários.

 

Agradeci pelo apoio emocional recebido da minha família e do meu marido. Lembrei de agradecer por trabalhar por conta própria e, devido a isso, poder dedicar meu tempo na busca de algum tratamento.

 

Enfim, ao longo dos dias, achava tantos mais motivos para agradecer, que qualquer lamentação parecia até injusta. Acho que esse foi um conselho realmente válido. Serve para todas as pessoas em qualquer situação difícil de aceitar. Sempre há um motivo para agradecer e esse levará a outro, e assim por diante. Conselho precioso, de uma amiga preciosa.

                                                                 

Trecho do livro: Perdi meu bebê. Por quê? – Ed. Livropronto

 

Simone Mendonça Diniz – Publicitária e Escritora

www.simonemendoncadiniz.blogspot.com.br

  

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