De lixo hospitalar a salvador de vidas

Dra. Lygia da Veiga Pereira, PhD

O nascimento de um bebê é um momento especial, e uma importante decisão precisa ser tomada: o que fazer com o sangue do cordão umbilical? Jogar fora, ou armazenar? Para que servem as células-tronco do sangue do cordão umbilical? Vou precisar usar? Perguntas importantes que pedem respostas fundamentadas.

No fim da década de 80, descobriu-se que as células-tronco do sangue do cordão umbilical (SCU) são basicamente as mesmas que as da medula óssea, que dão origem a todas as células que formam o sangue e o sistema imunológico. Como a medula óssea, elas podem ser usadas no tratamento de até 79 doenças diferentes: leucemias, linfomas e mieloma múltiplo, além de outras imunológicas e hereditárias.

Foram criados bancos de SCU, que armazenam milhares de unidades para uso no tratamento dessas doenças.  Hoje, pacientes podem recorrer a doadores de medula óssea e de sangue de cordão para achar uma amostra compatível.  Porém, apesar de todo esforço na implementação desses bancos, sabemos bem que a probabilidade de encontrar um doador, ou uma amostra compatível ainda é pequena. Por isso, algumas famílias optam por armazenar as células de seu recém nascido em bancos privados, seja por terem algum caso de doença na família, ou por precaução.

A diferença entre doar o SCU para um banco público e armazená-lo num banco privado é que, no primeiro caso, a amostra doada é anônima e pode ser usada tanto em pesquisa quanto para o transplante de qualquer paciente. No segundo, só a família tem acesso a ela, que é perfeitamente compatível com a própria pessoa e apresenta 25% de probabilidade de ser compativel entre irmãos.  Apesar de só poder ser feita em um número ainda limitado de hospitais, a doação do SCU a um banco público é gratuita, enquanto o armazenamento privado é pago.

Vale a pena pagar pelo armazenamento?  Esse debate apresenta uma polarização pouco transparente: por um lado, algumas empresas de armazenamento privado fazem uma propaganda sensacionalista, vendendo as células-tronco do SCU como a cura para todos os males.  De outro, talvez como reação a essa atitude pouco ética, alguns profissionais de saúde declaram que o armazenamento privado “não serve para nada”.  Por muito tempo, os médicos consideravam como um risco quase remoto a probabilidade de uma pessoa vir a precisar de um transplante de medula. De fato, a incidência de doenças como a leucemia até os 20 anos é de apenas um em 11.494. Mas estudos recentes demonstram que a probabilidade de uma pessoa vir a precisar de um transplante de células-tronco ao longo de toda a sua vida até 70 anos é muito maior: de um em 220.

Se este risco justifica ou não o armazenamento privado do SCU, é uma questão pessoal, que deve ser discutido com o médico da família. De qualquer forma, a identificação de células-tronco no SCU revolucionou a área de hematologia/oncologia, e abriu novas perspectivas de tratamento para dezenas de doenças.

Porém, ainda mais fascinante é o quanto o uso das células-tronco está evoluindo rapidamente da bancada dos laboratórios para ensaios clínicos com pacientes. Médicos do Advocate Hope Children’s Hosp. & Christ Med. Center, Illinois, EUA, obtiveram pela primeira vez sucesso tratando uma leucemia linfoide com um transplante de células-tronco de SCU autólogo, ou seja, do próprio paciente – algo que até então era considerado ineficaz.  E em janeiro deste ano, cientistas do Fred Hutchinson Cancer Research Center, Seattle, EUA, obtiveram sucesso ao multiplicar em 140 vezes o número de células-tronco hematopoéticas encontradas no SCU. Essa descoberta é de enorme importância, já que abre uma perspectiva para resolver um dos maiores problemas para tratar doenças como a leucemia: a quantidade limitada de células-tronco disponíveis para o transplante de medula. Esses resultados demonstram que as células-tronco do SCU são de fato matrizes valiosíssimas, e reforçam a importância do seu armazenamento.

Finalmente, as células-tronco do SCU e da medula óssea também podem vir a tratar doenças que não envolvam o sistema hematopoiético.  Doenças graves até hoje incuráveis, como a paralisia cerebral infantil ou o Diabete Tipo 1, têm respondido de maneira positiva em testes clínicos com essas células feitos no EUA e no Brasil.

É fato que as células-tronco do SCU já têm um grande valor no tratamento de doenças do sangue e são uma grande promessa terapêutica para outras doenças mais comuns.  Em 2009, houve mais de 3 milhões de nascimentos no Brasil, ou seja, tivemos em mãos 3 milhões de unidades de sangue de cordão umbilical.  É fundamental a existência de políticas públicas para a captação eficiente desse valioso material biológico.

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