A intervenção psicológica na ginecologia e na gravidez de risco

O psicólogo que trabalha com gestante de alto risco deve estar atento às várias condições de risco que estão associadas a estas gestantes, podendo atuar de forma preventiva para diminuí-los.

Murphy e Robbins, comentam que a gestação constitui um desafio adaptativo social e psicológico, tanto para as mulheres como para suas famílias. Mesmo numa gestação considerada normal e não complicada há um rompimento biológico e psicológico do indivíduo, uma alteração dos papéis de trabalho e familiares, estabelecendo-se importantes padrões interacionais entre pais e bebês. Considerando as gestações de alto risco, essas assumem um significado ainda maior, pois a gestação e o parto são cada vez mais vistos como precisando de intervenção médica. Se a gestação já é um desafio adaptativo, a gestação de alto risco representa problemas sociais e psicológicos ainda maiores para as pacientes.

Durante estas gestações difíceis emergem sentimentos como o temor pela sobrevivência do filho e pela própria vida, o distanciamento do bebê e dos preparativos relacionados ao nascimento, com o intuito de evitar sofrimento e o sentimento de culpa por não conduzir a gravidez de forma normal, além da falta de controle da gestação e do corpo.

Segundo o Ministério da Saúde, no conteúdo emocional da mulher entram em jogo fatores psíquicos preexistentes e atuais, os componentes da gravidez e os fatores ambientais. Estes conteúdos manifestam-se através da ansiedade, num mecanismo emocional que se estende durante toda a gravidez.

A ansiedade tem várias causas identificáveis para cada trimestre, mas que se intercambiam psicodinamicamente. Listam-se, entre elas, ambivalência, negação, regressão, introspecção, medo, etc. Como a condição de risco é diagnosticada durante a gestação, a grávida experimenta então, todas as reações próprias do vivenciamento do luto, pela “morte da gravidez idealizada” e surgem sentimentos de culpa, raiva e censura.

Murphy e Robbins relatam que conforme a gestante vai desenvolvendo um certo grau de acomodação às diversas modificações do contexto social e do equilíbrio psicológico, com freqüência reaparecem antigos conflitos, não resolvidos de forma adequada nos períodos desenvolvimentais anteriores. Por exemplo, as gestantes podem apresentar conflitos de autonomia com suas próprias mães, reativação da rivalidade com os irmãos ou ativação das dúvidas a respeito da sexualidade e fantasias perturbadoras a respeito de relações anteriores, com as quais lidava adequadamente antes da gestação, mas agora alteram as interações familiares ou provocam desacordos conjugais.

Segundo Soifer o sintoma da sonolência, favorecendo a regressão dos estímulos, revela-se proveitoso, além de constituir uma defesa biológica adequada, que proporciona ao organismo uma quota maior de repouso, necessária ao trabalho que inicia. Em conseqüência, convém animar a gestante iniciante a aceitar a necessidade de dormir mais durante os dois primeiros meses, já que com isso resolve várias situações ao mesmo tempo, por outro lado a insônia deve ser considerada como a expressão de uma situação externa de ansiedade frente a gravidez.

Segundo Maldonado, o temor de ter um filho monstruoso está ligado a imagem de uma educação distorcida; se a menina cresce com a noção de que o interior do seu corpo é cheio de coisas sujas e ruins (excrementos, sangue menstrual, etc), o que está contido dentro de seu útero também poderá ser sentido da mesma forma. Se o sexo é algo sujo e ruim, se a menstruação é repugnante, o filho – produto de todas as coisas – poderá ser igualmente vivido como repugnante ou monstruoso.

As gestantes que excluem as preocupações normais a respeito do feto em desenvolvimento manifestam um comportamento inadaptado, essa incapacidade de desenvolver uma aproximação emocional significativa com o feto em crescimento é uma inadaptação psicossocial, nessas situações as gestantes apresentam respostas muito abaixo ou acima das normais aos primeiros movimentos fetais, não manifestam interesse pelos batimentos cardíacos do feto, por sua posição in útero, apresentam regressão, podendo se mostrar reivindicativas, não-cooperativas, provocativas, hostis, passivas, controladoras ou desinteressadas pelo tratamento.

A hospitalização é um fator estressante, ainda mais para as gestantes de alto risco, representando um desafio adaptativo não somente para ela como para sua família. As gestantes com determinados riscos durante a gestação precisam ser hospitalizadas por longos períodos, para uma supervisão clínica cuidadosa. As gestantes que se sentem saudáveis geralmente apresentam problemas de adaptação à hospitalização, principalmente devido ao tédio, inquietude e irritação provocados pela obediência às regras e regulamentos do hospital. Muitas dessas pacientes têm medo da hospitalização, pois mesmo atualmente os hospitais ainda são considerados locais onde se morre.

Condutas normalmente adotadas para o tratamento da gestante de risco, podem contribuir para aumentar a crise e o estresse vividos não só por elas, mas também pelos seus familiares, gerando alterações pessoais e no ritmo familiar, dentre elas destacam-se o afastamento da mulher do seu domicílio, dos familiares, das atividades profissionais e domésticas. Evidenciam-se as dificuldades nas adaptações da gestante ao novo ambiente, às condutas hospitalares, aos hábitos culturais, às alterações emocionais, como solidão, ansiedade, tédio, depressão e medo; à sobrecarga de funções para os familiares onde normalmente o marido passa a assumir o cuidado com os filhos e com a casa.

As gestantes de alto risco apresentam características de aflição durante a hospitalização pré-natal, as principais preocupações envolvem o bebê, a saúde pessoal e a dos filhos que ficaram em casa, e o que vai acontecer com o parceiro. O que é menos verbalizado são os descontentamentos com as rotinas hospitalares, a depressão e a preocupação por não receberem informações satisfatórias a respeito dos planos de tratamento, a solidão, o desagrado com sua saúde e com a alimentação.

O repouso parcial ou total, a conduta normalmente adotada e aceita para o tratamento das intercorrências na gestação de alto risco pode gerar nas gestantes alguns efeitos que incluem problemas psicológicos decorrentes do isolamento e confinamento, como problemas musculares, alterações circulatórias, diminuição de energia, diminuição da capacidade mental e de concentração, tensão, exaustão, perda de peso e reações emocionais (choque, confusão, solidão, ansiedade, depressão, mudanças de humor e indisposição), que pode-se estender até o pré-parto.

É freqüente em gestantes que deixam os filhos em casa sentirem-se culpadas por não mais cumprirem as suas responsabilidades maternas, trazem grande ligação com os filhos que ficaram em casa e por ainda não terem estabelecido uma ligação com o feto, percebem a saúde do feto como menos importante do que a dos filhos, podendo se irritar com o feto porque este a impede de permanecer com a família, demonstrando pouca preocupação com ele e se preocupando mais com a família. Muitas vezes é difícil encontrar pessoas para cuidar dos filhos, o que obriga os membros familiares adultos e alterem suas rotinas, permanecendo em casa e cuidando das crianças.

De vital importância é o suporte psicológico que deve estar sempre ao lado da gestante e dos familiares, ouvindo-os sem julgamento, nem preconceitos, percebendo as reais necessidades e significados atribuídos a essa nova vivência, alterações de ritmo de vida e de papéis, colocando-se à disposição da gestante e de sua família.

O acompanhamento psicológico deve acontecer durante toda hospitalização da gestante e uma vez que esta tenha alta hospitalar o atendimento psicológico pode encerrar-se ou pode-se encaminhar, caso necessário, a gestante para atendimento ambulatorial. O atendimento psicológico deve-se se estender também à família da gestante, pois é de suma importância o suporte familiar como forma de prevenção de distúrbios psiquiátricos.

O atendimento domiciliar à gestante de alto risco é uma prática recente, visa reduzir o estresse advindo da hospitalização, buscando atender a gestante de uma forma humanizada, proporcionando atenção de acordo com sua realidade, facilitando sua participação ativa e estimulando sua solidariedade e o suporte familiar, através deste atendimento pode-se fornecer um cuidado compreensivo, holístico e centrado no cliente.

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